Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Rafael Barranco
Ah, na chácara, também tinha um barracão bem grande, cheio de milho seco e palha de
milho. A gente também gostava de brincar lá dentro. Eu gostava de subir no pé
de goiaba e comer a fruta “in natura”, inclusive com os bichinhos (risos).
– Eu sou bem mais nova que vocês, então minhas memórias não são tão
antigas assim. Eu já sou do tempo da chácara fechada por muros. Nós jogávamos
vôlei e a bola caía lá dentro. Nos primeiros anos era fácil pular e pegá-la.
Depois, à medida que crescíamos, o muro também ficava cada vez mais alto e o
jeito era ir lá no portão e pedir pelo amor de Deus para alguém pegá-la. Às vezes nos deixavam entrar
para ajudar a procurá-la. Éramos seguidos por cachorros enormes, o que nos dava
muito medo, é claro, mas não impedia que observássemos aquela maravilha de
chácara. Momentos inesquecíveis!
Nos domingos à tarde, a diversão era, sentados na calçada, ver os “tubarões”,
como chamávamos os donos da chácara, seus familiares e convidados, deixando a
vila. Ficávamos contando quantos carros passavam por nós. Veraneio, Alpha Romeo
e outros maravilhosos automóveis. Era muito divertido.
– Boa lembrança, essa do paiol. O barracão servia para armazenar
temporariamente o produto da colheita. Ali, além do árduo trabalho de debulhar
milho (não havia máquina e nenhum recurso mecânico) nos divertimos muito,
principalmente às vésperas do sábado de aleluia, quando o grupo se reunia para
a confecção do Judas.
– Lembro-me bem desse paiol. Ele ficava à direita de quem entrava pelo
portão principal, a uns 200 metros. Mas eu não me lembro de ter entrado nesse
paiol!
A noite começava a cair sobre a vila. O grupo de amigos conversou, em algumas horas, o que poderia ser assunto para muitos dias. Mas não tinham muito tempo sobrando. Falavam à medida que as lembranças iam surgindo. Às vezes, até interrompiam quem estava falando, tanta a ânsia em contar um causo, antes que ele lhe escapasse pelas frestas da memória.
Francamente, um
só encontro não seria suficiente, principalmente agora que exercitaram a
prática de recordar. Tinham muito que contar.
Levantaram-se,
pediram a conta e se despediram, não sem antes combinar o próximo encontro, que
ficou marcado para dali a dois dias.
Aqueles dois dias se arrastaram à velocidade de tartaruga. Parecia que chegaria o fim do ano e a quarta-feira não. Os pensamentos estavam a todo vapor e fervilhantes, tantas as histórias que foram buscar lá no fundo do baú. No boteco estava tudo preparado: a mesa com cadeiras, as garrafas de tubaína e a jarra de K-Suco na geladeira e, dessa vez, até uma bandeja com petiscos doces e salgados, oferta do dono da casa. Verdade! O dono do boteco também se deliciou com os causos que ouviu. Também sentiu saudade do tempo em que viveu lá longe, antes de vir tentar a sorte naquelas paragens.
Cumprimentaram-se
e foram logo ao que interessava.
– Lá pelos anos 1950/1960, a rua se chamava Rio Branco e
tinha poucos moradores. De quem vinha do bar da escadaria, à esquerda, as
seguintes casas: do Caipira (num 20), do Zé Pintado (22), da D
Tereza (24), do Dito Foger – a gente falava Foga - (26), do seu Rafael (28), do
seu Joaquim (30) e do seu Lino (34, lá no alto do morro). Do lado direito: a do
seu Dito (21), a do seu Pedro (19), a do João da Bota (17) e a da chácara (35).
– Estão
faltando alguns nomes de pessoas que moravam na Rio Branco; vou pesquisar. Ah,
devemos nos lembrar também que essa rua deu nome a um super time de futebol de
salão.
– Isso
mesmo! E para fazer propaganda, colocamos em pedaços de papel os dizeres “Rio
Branco vem aí” e jogamos nos quintais das casas do Portela. Foi um comentário
geral.
– Engraçado, estou ouvindo você falar os nomes dos moradores das casas
da Rio Branco e você não mencionou a minha! Lembro-me muito bem que havia uma
amoreira no fundo do quintal e um lago que meu pai fez para os patos.
– Certo,
Nilva, você morou na casa de número 21, a mesma em que morou o seu Benedito
Corrêa. Aliás, além de vocês, outras famílias moraram, em tempos diferentes, na
mesma casa.
– Não
sabia que outras pessoas moraram aqui. Nem que o seu Lourenço havia morado.
Interessante. Sei que houve uma troca de casas e que depois ficou anos na
justiça para ser recuperada pelo meu pai. Bom saber desses fatos.
– Isso mesmo, Leandra, não sei se nessa ordem e nem sei se só esses
moradores, mas é mais ou menos assim: primeiro, seu Dito e dona Raquel –
segundo, seu Lourenço e dona Dora – terceiro, seu Ari e dona Alexandra –
quarto, seu Lindolfo e esposa – e, por último, antes de você e o Márcio,
novamente seu Dito e dona Raquel. Eu acho que teve mais uma família, mas não
tenho certeza.
– Eu
não sei se moraram ou eram parentes de quem lá morava, mas me lembro de uma
família, se não me engano paraguaia. Lembro-me dos nomes Venina, Leocádio...
havia mais alguns que não me lembro.
– Tem
razão. Os outros nomes eram Bernardina, Alfredo e Carlito. Tinha uma menina
mais velha que não sei o nome.
– Uau!
Que história! Estou adorando essas recordações e novas informações. Não sabia
que havia morado tantas pessoas aqui.
E com esse comentário, o grupo aproveitou para uma pausa. O calor lá fora era forte, o que levava para dentro do boteco um mormaço quase que desconfortável. Quase, porque os refrescos à disposição amenizavam e pareciam diminuir a temperatura. Nesses pequenos intervalos, os amigos aproveitavam para falar de assuntos diversos. Perguntar da família, dos amigos e da rotina de cada um. Mas procuravam voltar logo a seus lugares, para a sequência dos causos que se divertiam em contar.
(Ainda
tem mais)

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