domingo, 11 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Rafael Barranco

 

Portão da chácara

Ah, na chácara, também tinha um barracão bem grande, cheio de milho seco e palha de milho. A gente também gostava de brincar lá dentro. Eu gostava de subir no pé de goiaba e comer a fruta “in natura”, inclusive com os bichinhos (risos).

– Eu sou bem mais nova que vocês, então minhas memórias não são tão antigas assim. Eu já sou do tempo da chácara fechada por muros. Nós jogávamos vôlei e a bola caía lá dentro. Nos primeiros anos era fácil pular e pegá-la. Depois, à medida que crescíamos, o muro também ficava cada vez mais alto e o jeito era ir lá no portão e pedir pelo amor de Deus para alguém pegá-la. Às vezes nos deixavam entrar para ajudar a procurá-la. Éramos seguidos por cachorros enormes, o que nos dava muito medo, é claro, mas não impedia que observássemos aquela maravilha de chácara. Momentos inesquecíveis!

Nos domingos à tarde, a diversão era, sentados na calçada, ver os “tubarões”, como chamávamos os donos da chácara, seus familiares e convidados, deixando a vila. Ficávamos contando quantos carros passavam por nós. Veraneio, Alpha Romeo e outros maravilhosos automóveis. Era muito divertido.

– Boa lembrança, essa do paiol. O barracão servia para armazenar temporariamente o produto da colheita. Ali, além do árduo trabalho de debulhar milho (não havia máquina e nenhum recurso mecânico) nos divertimos muito, principalmente às vésperas do sábado de aleluia, quando o grupo se reunia para a confecção do Judas.

– Lembro-me bem desse paiol. Ele ficava à direita de quem entrava pelo portão principal, a uns 200 metros. Mas eu não me lembro de ter entrado nesse paiol!

A noite começava a cair sobre a vila. O grupo de amigos conversou, em algumas horas, o que poderia ser assunto para muitos dias. Mas não tinham muito tempo sobrando. Falavam à medida que as lembranças iam surgindo. Às vezes, até interrompiam quem estava falando, tanta a ânsia em contar um causo, antes que ele lhe escapasse pelas frestas da memória.

Francamente, um só encontro não seria suficiente, principalmente agora que exercitaram a prática de recordar. Tinham muito que contar.

Levantaram-se, pediram a conta e se despediram, não sem antes combinar o próximo encontro, que ficou marcado para dali a dois dias.

Aqueles dois dias se arrastaram à velocidade de tartaruga. Parecia que chegaria o fim do ano e a quarta-feira não. Os pensamentos estavam a todo vapor e fervilhantes, tantas as histórias que foram buscar lá no fundo do baú. No boteco estava tudo preparado: a mesa com cadeiras, as garrafas de tubaína e a jarra de K-Suco na geladeira e, dessa vez, até uma bandeja com petiscos doces e salgados, oferta do dono da casa. Verdade! O dono do boteco também se deliciou com os causos que ouviu. Também sentiu saudade do tempo em que viveu lá longe, antes de vir tentar a sorte naquelas paragens.

Cumprimentaram-se e foram logo ao que interessava.

Lá pelos anos 1950/1960, a rua se chamava Rio Branco e tinha poucos moradores. De quem vinha do bar da escadaria, à esquerda, as seguintes casas: do Caipira (num 20), do Zé Pintado (22), da D Tereza (24), do Dito Foger – a gente falava Foga - (26), do seu Rafael (28), do seu Joaquim (30) e do seu Lino (34, lá no alto do morro). Do lado direito: a do seu Dito (21), a do seu Pedro (19), a do João da Bota (17) e a da chácara (35).

 Estão faltando alguns nomes de pessoas que moravam na Rio Branco; vou pesquisar. Ah, devemos nos lembrar também que essa rua deu nome a um super time de futebol de salão.

 Isso mesmo! E para fazer propaganda, colocamos em pedaços de papel os dizeres “Rio Branco vem aí” e jogamos nos quintais das casas do Portela. Foi um comentário geral.

– Engraçado, estou ouvindo você falar os nomes dos moradores das casas da Rio Branco e você não mencionou a minha! Lembro-me muito bem que havia uma amoreira no fundo do quintal e um lago que meu pai fez para os patos.

 Certo, Nilva, você morou na casa de número 21, a mesma em que morou o seu Benedito Corrêa. Aliás, além de vocês, outras famílias moraram, em tempos diferentes, na mesma casa.

 Não sabia que outras pessoas moraram aqui. Nem que o seu Lourenço havia morado. Interessante. Sei que houve uma troca de casas e que depois ficou anos na justiça para ser recuperada pelo meu pai. Bom saber desses fatos.

– Isso mesmo, Leandra, não sei se nessa ordem e nem sei se só esses moradores, mas é mais ou menos assim: primeiro, seu Dito e dona Raquel – segundo, seu Lourenço e dona Dora – terceiro, seu Ari e dona Alexandra – quarto, seu Lindolfo e esposa – e, por último, antes de você e o Márcio, novamente seu Dito e dona Raquel. Eu acho que teve mais uma família, mas não tenho certeza.

 Eu não sei se moraram ou eram parentes de quem lá morava, mas me lembro de uma família, se não me engano paraguaia. Lembro-me dos nomes Venina, Leocádio... havia mais alguns que não me lembro.

 Tem razão. Os outros nomes eram Bernardina, Alfredo e Carlito. Tinha uma menina mais velha que não sei o nome.

 Uau! Que história! Estou adorando essas recordações e novas informações. Não sabia que havia morado tantas pessoas aqui.

E com esse comentário, o grupo aproveitou para uma pausa. O calor lá fora era forte, o que levava para dentro do boteco um mormaço quase que desconfortável. Quase, porque os refrescos à disposição amenizavam e pareciam diminuir a temperatura.  Nesses pequenos intervalos, os amigos aproveitavam para falar de assuntos diversos. Perguntar da família, dos amigos e da rotina de cada um. Mas procuravam voltar logo a seus lugares, para a sequência dos causos que se divertiam em contar.

(Ainda tem mais)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

AINDA PENSANDO O NATAL

  , Senhor Papai Noel, gostaria de fazer algumas observações que me parecem pertinentes. Contrária à situação do ano passado, neste, não f...