Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela
Estação
Manuel Branco
– Pedrinho, e do campinho lá
perto da minha casa, você se lembra?
– Claro, James! Aquele campinho
tem muitas histórias. Uma das lembranças mais marcantes, entre outras, é da
mina d’água que havia em uma de suas laterais. A gente subia por uma trilha no
meio do mato, acho que por uns 20 metros mais ou menos e, pronto, lá estava o
pequeno espelho d’água formado pelo represamento da água que descia da
nascente. A gente deitava de bruços e bebia diretamente, sem colocar as mãos ou
fazer uso de qualquer outra coisa.
– Cara eu também me lembro
disso. Que fim será levou o nosso campinho?
– Recentemente fui, ou melhor,
tentei ir até o local, mas não consegui encontrar. Está tudo mudado; asfaltado
e cheio de casas. Lá agora é outro bairro, é o Jardim São Carlos.
Até hoje, quando me lembro,
sinto o sabor da água (tinha sabor!). O campinho era um dos meus lugares
preferidos. Creio que jogar bola, depois de nadar na lagoa e no rio, era uma
das coisas que eu mais gostava. Eu, Jô, Zezinho, James, Paulinho, Cidinho,
Tino, Irani... A
gente ficava jogando até que a falta de claridade não permitia mais. Aí a gente
ia embora, cansado, mas feliz pra caramba!
– Acho que os mais novos não
“pegaram” o tempo do campinho. Conta pra nós onde ele ficava e como se chegava
até lá.
– Como disse, hoje lá é o
Jardim São Carlos. Naquele tempo todo aquele terreno era ocupado pela chácara
do japonês, da dona Tiqüê. A frente da chácara era para a rua que margeia o rio
e o acesso para o campinho era feito acompanhando a cerca à direita do portão
de entrada. Depois de mais ou menos uns cinquenta metros, logo após uma curva,
chegava-se a uma espécie de vale, onde ficava o campinho. O curioso era que o
campinho ficava em uma descida, o que fazia com que um dos times atacasse pra
baixo, literalmente.
– Falando em chácara, deixe-me
falar um pouco dessa aqui ao nosso lado: a chácara dos italianos. Vou
reproduzir do jeitinho que o Walter me contou dia desses, quando nos
encontramos para um bate papo: “A gente morava na chácara que o meu pai tomava
conta e eu me juntava à molecada pra roubar as frutas da chácara. (Dá pra
entender?). Não, Pedrinho, não viemos de Minas. Viemos de Jundiaí. Moramos
naquela casa lá no fim da chácara, perto da fábrica de vinho. No começo até
cobra caía na cama do Élio. Depois o caseiro se mudou e a gente veio para a casa
perto do portão de entrada. Comparada com a outra, era só conforto. Depois meu
pai saiu da chácara e a gente foi morar lá em cima (onde hoje mora a Maura), na
casa do seu Lino, e o seu Emílio ficou como caseiro.”
– E dos nossos bailinhos, você
se lembra, Walter?
– Como ia esquecer? Era
todo fim de semana! E, falando nisso, você se lembra do Tonheira, que dançava
muito.
– Verdade,
ele vinha da cidade, acho que morava em Barra Funda, e trazia as novidades para
os nossos bailinhos. Pelo menos na nossa avaliação, o cara dançava demais!
– E
o Tonheira que dançava muito, por um acaso era o meu namorado rsrsrsrs! Certo,
Ângela?
–
Pra variar, né Célia?
Eu proponho que aproveitemos
a sombra das árvores da chácara, para uma pequena parada. Afinal, ninguém é de
ferro e a fome já deve estar dando o ar da graça.
De onde o grupo estava
instalado para o “piquenique” dava para ver o restante da Rua Rio Branco, o bar
da escadaria e a Rua Campinas, também conhecida como Rua de Baixo.
A primeira casa que se
avistava na Rua de Baixo era a do Joãozinho Torto, depois a do Sargento Santana
e, lá no final, a casa grande, que pertencia à chácara, onde morou a Neguita e,
depois, o Sargento Negrão, pai do Carlinhos.
–
Comadre, você reconheceu as pessoas daquele grupo que passou por aqui e que se
demoraram olhando para o nosso lado?
–
Claro, comadre Paineira. Logo que os avistei, tinha certeza de que os conhecia.
E quando ouvi suas vozes, então, a certeza se reforçou.
–
Bateu uma tremenda saudade, não é mesmo comadre Caixa?
Enquanto
falavam, a Caixa d´água, no formado e um queijo e a Paineira, já com seus
galhos arqueados com o peso da idade, disfarçavam o fio de lágrima que insistia
em descer pelos seus rostos.
– Como
eram pequeninos, não comadre? Os meninos com seus calções brancos, feitos de
sacos da compra que vinham do armazém da ferrovia e as meninas, com seus
vestidos, também feitos em casa, com o corte de tecido, comprado às duras
penas, no bazar do seu Bobs.
(Ainda tem mais)

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