segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Estação Manuel Branco

 

Campinho

 Pedrinho, e do campinho lá perto da minha casa, você se lembra?

 Claro, James! Aquele campinho tem muitas histórias. Uma das lembranças mais marcantes, entre outras, é da mina d’água que havia em uma de suas laterais. A gente subia por uma trilha no meio do mato, acho que por uns 20 metros mais ou menos e, pronto, lá estava o pequeno espelho d’água formado pelo represamento da água que descia da nascente. A gente deitava de bruços e bebia diretamente, sem colocar as mãos ou fazer uso de qualquer outra coisa.

 Cara eu também me lembro disso. Que fim será levou o nosso campinho?

 Recentemente fui, ou melhor, tentei ir até o local, mas não consegui encontrar. Está tudo mudado; asfaltado e cheio de casas. Lá agora é outro bairro, é o Jardim São Carlos.

Até hoje, quando me lembro, sinto o sabor da água (tinha sabor!). O campinho era um dos meus lugares preferidos. Creio que jogar bola, depois de nadar na lagoa e no rio, era uma das coisas que eu mais gostava. Eu, Jô, Zezinho, James, Paulinho, Cidinho, Tino, Irani... A gente ficava jogando até que a falta de claridade não permitia mais. Aí a gente ia embora, cansado, mas feliz pra caramba!

 Acho que os mais novos não “pegaram” o tempo do campinho. Conta pra nós onde ele ficava e como se chegava até lá.

 Como disse, hoje lá é o Jardim São Carlos. Naquele tempo todo aquele terreno era ocupado pela chácara do japonês, da dona Tiqüê. A frente da chácara era para a rua que margeia o rio e o acesso para o campinho era feito acompanhando a cerca à direita do portão de entrada. Depois de mais ou menos uns cinquenta metros, logo após uma curva, chegava-se a uma espécie de vale, onde ficava o campinho. O curioso era que o campinho ficava em uma descida, o que fazia com que um dos times atacasse pra baixo, literalmente.

 Falando em chácara, deixe-me falar um pouco dessa aqui ao nosso lado: a chácara dos italianos. Vou reproduzir do jeitinho que o Walter me contou dia desses, quando nos encontramos para um bate papo: “A gente morava na chácara que o meu pai tomava conta e eu me juntava à molecada pra roubar as frutas da chácara. (Dá pra entender?). Não, Pedrinho, não viemos de Minas. Viemos de Jundiaí. Moramos naquela casa lá no fim da chácara, perto da fábrica de vinho. No começo até cobra caía na cama do Élio. Depois o caseiro se mudou e a gente veio para a casa perto do portão de entrada. Comparada com a outra, era só conforto. Depois meu pai saiu da chácara e a gente foi morar lá em cima (onde hoje mora a Maura), na casa do seu Lino, e o seu Emílio ficou como caseiro.”

 E dos nossos bailinhos, você se lembra, Walter?

– Como ia esquecer? Era todo fim de semana! E, falando nisso, você se lembra do Tonheira, que dançava muito. 

 Verdade, ele vinha da cidade, acho que morava em Barra Funda, e trazia as novidades para os nossos bailinhos. Pelo menos na nossa avaliação, o cara dançava demais!

 E o Tonheira que dançava muito, por um acaso era o meu namorado rsrsrsrs! Certo, Ângela?

– Pra variar, né Célia?

 

Eu proponho que aproveitemos a sombra das árvores da chácara, para uma pequena parada. Afinal, ninguém é de ferro e a fome já deve estar dando o ar da graça.

De onde o grupo estava instalado para o “piquenique” dava para ver o restante da Rua Rio Branco, o bar da escadaria e a Rua Campinas, também conhecida como Rua de Baixo.

A primeira casa que se avistava na Rua de Baixo era a do Joãozinho Torto, depois a do Sargento Santana e, lá no final, a casa grande, que pertencia à chácara, onde morou a Neguita e, depois, o Sargento Negrão, pai do Carlinhos.

 

– Comadre, você reconheceu as pessoas daquele grupo que passou por aqui e que se demoraram olhando para o nosso lado?

– Claro, comadre Paineira. Logo que os avistei, tinha certeza de que os conhecia. E quando ouvi suas vozes, então, a certeza se reforçou.

– Bateu uma tremenda saudade, não é mesmo comadre Caixa?

 

Enquanto falavam, a Caixa d´água, no formado e um queijo e a Paineira, já com seus galhos arqueados com o peso da idade, disfarçavam o fio de lágrima que insistia em descer pelos seus rostos.

 

 Como eram pequeninos, não comadre? Os meninos com seus calções brancos, feitos de sacos da compra que vinham do armazém da ferrovia e as meninas, com seus vestidos, também feitos em casa, com o corte de tecido, comprado às duras penas, no bazar do seu Bobs.

 

(Ainda tem mais)

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