sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 Fragmentos de um passeio pelo Bairro do Jardim Portela

 

Apresentação

Vamos puxar pela memória e contar alguma coisa que tenha relação com o bairro do Jardim Portela. Vamos contar um pouco da história do nosso bairro e de seus moradores. 

Sem intenção de que seja fiel a documentos oficiais, o propósito é contar os causos que estão guardados na memória de cada um. É possível que encontremos diferentes interpretações para uma mesma situação, o que não compromete nosso delicioso passeio, pois nos relatos vindos da memória, a versão é tão importante quanto a realidade.

 O trem da imaginação, em sua viagem, faz rápidas paradas, o suficiente para que seus passageiros possam tomar fôlego.

 “Histórias não contadas são apenas recordações.” (Ayrton Corrêa)

 

Boa viagem!

 Partida: Estação Pedro Virgílio Corrêa

 

Casa número 19, da Rua Rio Branco

Numa bela tarde de verão, um grupo de amigos resolveu se reunir para “jogar conversa fora”, contar histórias, contar causos.

O cenário, nas memórias dos amigos, é o mesmo: o Bairro do Jardim Portela, incrustado entre morros cobertos de muita vegetação, invisível para quem estivesse no “além linha”, pelos lados do centro da cidade; com suas ruas esburacadas e poeirentas ou lamacentas, a depender da época do ano. Lugar onde o silêncio impera, quebrado apenas pelo cantar dos pássaros e pelo vozerio das poucas crianças que corriam leves e soltas em suas aventuras descompromissadas. Lugar onde, um pouco mais tarde, esse mesmo silêncio seria espantado pelo som da sonata que insistia em rodar os poucos discos de vinil, tocados à exaustão nos bailinhos caseiros.

Os personagens de hoje, os mesmos de muitos anos atrás. Por isso, o tom da conversa não poderia ser outro: recordações e uma pitadinha de saudade.

Olhos brilhantes ao se lembrar de coisas boas. Ar de surpresa, quando alguém conta coisas que muitos já não se lembram mais. Uns, mais calados que outros, ainda timidamente preferem ouvir. Não faz mal, o que importa é que todos estão se divertindo; trazendo de volta histórias que viveram, que assistiram ou que apenas ouviram contar. E as diferentes versões é que as tornam interessantes, divertidas. 

E os causos brotam com naturalidade, enquanto o som inconfundível de uma melodia dos anos 60 embala a animada conversa, regada à delícia incomparável da refrescante tubaína.

 

– Estão vendo aquela casa ali, a de número 19? Então, naquele tempo, essa rua que hoje se chama José Luiz Braga Filho, se chamava Rua Rio Branco. É uma das casas mais antigas do bairro e foi construída pelo casal Pedro Virgílio Corrêa e Glória Silva Corrêa, lá pelo início dos anos 50.

 E hoje está sendo reformada pelo casal Leandro Lopz e Alinne Barril Lopz, não é mesmo?

– Essa casa eu conheço, meu amigo, disse alguém, enquanto outro emendava: há muitos séculos eu nasci nessa casinha. Lembro que eu tinha um dinossaurozinho como bicho de estimação.

– Eu me lembro muito bem desse lindo tempo...

– Lembro-me do dia em que a energia elétrica foi instalada. Se eu não me engano, o Linguinha foi o eletricista na época e chegou junto com meu pai e o prefeito. A festança estava preparada. Lembro-me do momento em que a chave foi ligada e as pessoas gritavam felizes. Havia pessoas por todo canto. Sabe, mesmo puxando pela memória, não consigo me lembrar do transcorrer da comemoração.

– Nossa, disso eu não me lembro. Será que eu era um bebê? Ou já estava dançando de rosto colado lá no bailinho?

– Também não me lembro de quando foi ligada a energia elétrica.

 Senta, que lá vêm histórias! Muito bom! - alguém fala animado, até para que o grupo relaxe um pouco.

– Bom, se eu tenho 63, na época devia ter uns 7. Você tem 59, então eu tinha 7 e você 3. Acho que não dá pra lembrar mesmo. Só pensava em ficar com o rosto colado é na mamadeira! 

Uma alfinetada para animar a conversa.

 Eu me lembro que o eletricista foi o Zé Pinguinha, irmão do Ditinho Ferro Quina. A festa foi na casa do seu Pedro e da dona Glória. A instalação teve a ajuda do seu Cassimiro, amigo do casal, e que trabalhava no frigorífico. Segundo dona Glória contava, rolou um pequeno desentendimento entre os dois eletricistas, mas foi logo contornado pela turma do “deixa disso”.

 Adoro essas histórias. Pena que não posso contar nenhum causo também – comentou alguém que nasceu muito tempo depois que essas histórias aconteceram.

 Não se aborreça com isso. É exatamente para vocês, jovens, que estamos provocando essas recordações. Vocês podem participar apresentando dúvidas e sugestões, por exemplo.

Muito bem vinda a proposta de alguém para que esticassem as pernas. Um intervalo para uma ida ao banheiro (também, com tanta tubaína!), uma olhadela nas prateleiras de madeira do boteco, na vitrine de doces e um pouco de bate papo atualizado.  

Voltaram poucos minutos depois e, antes de tomarem assento, pediram uma garrafa de tubaína de maçã, para reabastecer seus copos.

 

(Ainda tem mais)


 

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